segunda-feira, 4 de abril de 2016

FALTA DE AGENTES ENDÊMICOS PREJUDICA COMBATE À DENGUE EM IRATI


Falta de agentes endêmicos prejudica
 combate à dengue em Irati
Município não consegue cumprir o número de visitas a residências por mês que é orientado pelo Ministério da Saúde: 100% dos imóveis. Apenas 3 mil das 18 mil residências de Irati foram visitadas no mês de março pelos agentes e, em fevereiro, foi menor ainda a cobertura - pouco mais de 1,5 mil imóveis foram visitados. O Diretor da 4ª Regional de Saúde alerta para a gravidade do fato

A falta de agentes endêmicos tem prejudicado o trabalho de combate à dengue e ao mosquito Aedes Aegypti em Irati, segundo a 4ª Regional de Saúde. De acordo com os relatórios da regional, os agentes não conseguiram realizar em fevereiro nem 8% das visitas necessárias nos imóveis de Irati. A orientação do Ministério da Saúde é que as visitas sejam feitas em 100% dos imóveis.


Ao todo, são 18.014 imóveis para serem visitados pelos agentes endêmicos, de acordo com a 4ª Regional. Atualmente, o município conta com 7 agentes efetivos e 12 com contratos temporários. Para o diretor da 4ª Regional de Saúde, João Antonio de Almeida Jr., o número é insuficiente. “O que nos preocupa muito é o município de Irati. Ele tem menos agentes que a maioria da região, com uma população, no mínino, o dobro de Imbituva. Como esses agentes são poucos, eles não têm capacidade de fazer todos os imóveis que seriam necessários”, disse.

“Cada agente tem que fazer 50 imóveis por dia na situação que está hoje e cada agente tem 9 minutos para fazer cada residência seguindo as diretrizes do Ministério da Saúde”, explica. Para ele, o município de Irati deveria ter no mínimo 28 agentes para realizar as visitas ao menos uma vez por mês em todos os imóveis.

De acordo com números apresentados para a 4ª Regional de Saúde, o município de Irati conseguiu aumentar um pouco as visitas, mas ainda continuou com um percentual baixo. Em março, foram cumpridas pouco mais de 16% do necessário. Foram 3.031 visitas realizadas, sendo que 871 imóveis estavam fechados ou a entrada foi recusada. Dessas visitas realizadas, foram encontrados focos do mosquito em 30 imóveis.

O tempo de visita em cada residência também é um dos pontos destacados pelo diretor. “A carga horária dos agentes está sendo muito pequena”, disse. “Nós vemos pelos relatórios que esses agentes estão trabalhando - além de ser número reduzido - apenas um período. As visitas estão sendo num tempo muito reduzido. Não estão atendendo as diretrizes que o Ministério da Saúde recomenda numa vistoria”, explica.

Além da vistoria externa, o Ministério da Saúde recomenda a visita interna acompanhada pelo responsável do imóvel para verificar possíveis acúmulos de água em locais como atrás da geladeira e em vasos de plantas. “Não estamos vendo fazendo bem as diretrizes”, alega o diretor.

Focos de ovos do mosquito

A 4ª Regional de Saúde também realiza periodicamente armadilhas em imóveis de Irati para verificar a existência de ovos do mosquito. Em apenas um mês, as equipes da 4ª Regional encontram um imóvel com 1.129 ovos do mosquito. As medições foram realizadas semanalmente. Do dia 23 de fevereiro a 29 de fevereiro foram encontrados 136 ovos neste imóvel. Nas semanas seguintes, no número aumentou para 351 ovos e depois para 374 ovos. Diminuiu apenas na última semana, onde foram encontrados 268 ovos entre os dias 14 a 21 de março.

“Isso nos mostra que o trabalho dos agentes não foi feito de maneira correta e não foram eliminados pontos onde já tinham comprovadamente achado mosquito, larvas e ovos”, disse.

A 4º Regional de Saúde irá repassar ao Ministério Público nesta sexta-feira (1º) os relatórios dos trabalhos realizados por Irati no combate à dengue.

Ministério Público também cobra ações na justiça

No último dia 14 de março, o juiz da 2.ª Vara Cível da Comarca de Irati/PR, Dr. Fernando Eugenio Martins de Paula Santos Lima , julgou procedente uma Ação Civil Pública do Ministério Público do Estado do Paraná em face da situação do Município de Irati no que diz respeito ao combate.

Na decisão, o juiz determinou que o município promova imediatamente as medidas necessárias para a contratação de novos agentes, em número mínimo ao que dispõe o Plano Nacional de Combate a Dengue.

Além disso, pediu que forneça os recursos materiais necessários para o exercício das atividades de combate ao mosquito e conscientização à população, e também, que o município mantenha atualizado o Plano de Contingência e informe na internet os índices de infestação predial.

O que diz a Secretaria de Saúde de Irati

De acordo com a Secretaria de Saúde, Irati possui 20 agentes para aproximadamente 24 mil imóveis (o que difere no número apresentado pela 4ª Regional, 18 mil). “O preconizado pelo Ministério da Saúde é um agente da dengue para cada 800 a 1000 imóveis. Em Irati temos 20 agentes para aproximadamente 24 mil imóveis”, informou a Secretaria de Saúde, através de sua assessoria.

“Para cada notificação é realizado o trabalho de pesquisa larvária com eliminação de criadouros ou tratamento, no caso de não possibilidade de remoção dos mesmos. Posteriormente, é realizado o combate do alado (mosquito) através da aplicação de inseticidas. Muitas notificações ocorrem em regiões já trabalhadas e novamente realizamos os trabalhos nestas localidades. Além deste trabalho no mês passado foram instaladas aproximadamente 160 armadilhas que precisavam ser trabalhadas nas segundas, terças e quartas no mês de março. Estas duas questões prejudicam o trabalho em campo, mas são ações necessárias para o combate ao Aedes Aegypti”, diz a nota.

A secretaria ainda informou que os poucos mais de R$ 100 mil recebidos do governo do Estado para o combate ao mosquito foram usados na contratação de 12 agentes temporários através de uma empresa terceirizada.

“Está prevista a contratação de novos agentes, através de processo seletivo, para suprir a necessidade”, informa a secretaria.

Perigo é grande

Para o diretor a situação de Irati é preocupante. “Irati hoje é um município considerado infestado de mosquito. O que está faltando? Ter o vírus circulante, chegar alguém contaminado, com dengue, chikungunya, zika, o mosquito picar essa pessoa e começar a transmitir?”, questiona o diretor da 4ª Regional de Saúde.

Atualmente, a região da 4ª regional possui 97 notificações de casos suspeitos de dengue e três casos de dengue confirmados, todos de Irati, mas contraídos fora do município. “O que está nos preocupando muito não é nem os casos notificados ou suspeitos, é o número de mosquitos que nós temos na nossa região, o trânsito muito grande de pessoas viajando o Brasil inteiro e esse mosquito, ele ficou com uma transmissão ainda mais complicada como no caso da febre chikungunya e da zika”, disse.

Para o diretor, Irati está na mesma situação que Paranaguá estava há um ano. Hoje, Paranaguá vive uma epidemia de dengue e já registrou 19 mortes por causa da doença.

Ele ainda alerta que a chegada da doença poderá sobrecarregar o sistema de saúde do município. “Hoje nós não temos [em caso de epidemia] capacidade instalada de atendimento ambulatorial pra atendimento dessas pessoas”, disse.

Prevenção necessária

Segundo o diretor, a prevenção é uma das melhores saídas para evitar as doenças que o mosquito Aedes Aegypti transmite. “Se nós não tivermos o mosquito, nós não vamos ter doença”, explica.

Alguns municípios têm usado inseticidas, conhecido como fumacê, para acabar com o mosquito, mas diretor alerta para a importância de exterminar os criadouros. “Essa ação [fumacê] vai matar o mosquito alado, mas não vai matar o ovo do mosquito. Ele vai matar mosquito que esteja ovulando. Se não matar os criadouros, daqui uma semana aqueles ovinhos irão nascer”, disse.

Para ele, a ação deve ser conjunta dos agentes com a população, vistoriando semanalmente os imóveis. "Não adianta fazer uma vistoria hoje e achar que é para o mês inteiro. É preciso fazer semanalmente”, alerta o diretor.

A vigilância deve continuar no inverno. “No inverno, vai diminuir um pouco a quantidade de mosquitos alados, mas a geada não mata ovos de mosquito. Tem que continuar mesmo no inverno. Esses ovos só estarão esperando vir a água e esquentar um pouquinho para eclodir”, explica. Ele ainda lembra que o único caso de dengue adquirido dentro do município registrado no ciclo passado foi exatamente no inverno. “Não vai ser o inverno que vai acabar com o mosquito”, destaca.

“Prevenção tem que continuar, mesmo que esfrie, mesmo que dê geada, mesmo no inverno”, disse. “Se nós não queremos ter dengue, nem o zika, só tem um jeito: acabar com o mosquito”.

Texto: Karin Franco/Hoje Centro Sul

Fotos: Karin Franco/Hoje Centro Sul e Divulgação/Ministério da Saúde


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